12/05/2017 Nôga Simões

Como ser mais produtivo e feliz no trabalho?

Um artigo de Dejours (Doutor em Medicina pela Faculdade de Medicina de Paris) denominado “Psicodinâmica do Trabalho e Teoria da Sedução”, gera uma reflexão importante sobre a importância da produtividade, criatividade e do zelo para a felicidade no trabalho. Afinal, muitas vezes temos a sensação de que ficamos patinando no trabalho e parece que não chegamos ao resultado desejado, de modo que a angústia nos invade.

Vou citar um exemplo que aconteceu comigo quando eu atuava como Gerente de Suporte, em que a missão era estruturar a área e aumentar a satisfação dos clientes, diminuindo o tempo médio de atendimento e aumentando a conformidade com o prazo. Mas o que acontecia era que dávamos treinamento do software para os clientes por skype e como todos os clientes tinham nosso contato, estes nos chamavam o tempo todo no skype e não sabíamos quem atendíamos primeiro e a sensação que tínhamos era que por mais que déssemos o máximo de nós, ainda assim não estava bom, porque íamos embora cansados e os clientes não ficavam satisfeitos, porque queriam pronto atendimento e com várias pessoas chamando ao mesmo tempo era difícil aumentar a satisfação dos clientes.

 

Este é um exemplo clássico de sofrimento no trabalho, porque o efetivo não era bem sucedido, a sensação de angústia era clara e a impressão que tínhamos era que estávamos patinando no trabalho. Mas como não estávamos satisfeitos com a situação, fizemos benchmarking com outras áreas de suporte, buscamos auxílio da qualidade com o intuito de superarmos essa situação de sofrimento, fizemos várias reuniões de trabalho para driblarmos essa situação e fazermos jus ao:“Missão dada é missão cumprida”.

 

Com isso, no Suporte, a solução que encontramos foi estabelecer um processo de atendimento via chamados (facedesk), bem como estabelecer uma nova ferramenta para treinamentos, além de atendimento via chat linkado com o facedesk e estruturação de indicadores e processos de atendimento por prioridade com manuais, métricas, enfim, mas até chegarmos nesse efetivo foi necessário sentir a dor do cliente, a angústia e utilizar criatividade e zelo para cumprirmos a missão de aumentarmos a satisfação dos clientes. Não foi fácil, mas o resultado foi recompensador e aí sim, houve prazer e felicidade no trabalho.

 

E se pararmos para pensar que passamos cerca de 2/3 da nossa vida trabalhando, é importante pensarmos em atalhos para sermos mais produtivos e realizados, acumulando mais sucessos do que fracassos para termos, dessa forma, mais momentos de felicidade do que de sofrimento no trabalho.

 

Pensando em prazer no trabalho, considero importante pensarmos no zelo como antídoto para esse resultado não satisfatório do trabalho, sendo que quando falamos de zelo aqui, estamos tratando daquela inteligência que possibilita inventar soluções com o propósito de anular a distância entre a tarefa (o prescrito) e a atividade (o efetivo); bem como da mobilização desta inteligência que acontece principalmente em situações de trabalho difíceis quando surgem efeitos negativos dos colaboradores sobre como tratar a distância entre o prescrito e o efetivo. Vivi muito isso no suporte e posso dizer que o zelo que fez a diferença.

Mas então Nôga, qual é o real significado do trabalho?

A definição que mais gostei é a de Dejours, o qual contextualiza que o trabalho é o que é preciso inventar e acrescentar de si mesmo às prescrições, para que funcione, sendo que para o trabalho funcionar é necessário muito zelo, porque só assim, podemos ter o trabalho vivo, do qual nenhuma organização pode prescindir. Mas, afinal, o que é necessário acrescentar às prescrições para que o trabalho funcione?

Geralmente não o sabemos previamente, ou seja, precisamos inventar, daí a importância da criatividade para diminuir essa distância entre o prescrito e o efetivo. Surge assim, a definição de prazer no trabalho, em que graças a seu zelo, o trabalhador consegue inventar soluções convenientes e se sentir feliz. Foi assim no Suporte!

Mas quando tratamos de prazer no trabalho temos uma ambivalência com o sofrimento, visto que quando as coisas não acontecem de modo satisfatório tendemos a nos sentirmos angustiados. E por que isso ocorre? Isso acontece porque trabalhar é primeiro, fracassar. Fracassei primeiro como líder no Suporte, mas não me contentei com isso, sonhava com a situação, tinha pesadelos, porque queria encontrar a solução e aí vem o mas que faz toda a diferença… Trabalhar é fracassar, mas, é, em seguida, mostrar-se capaz de suportar o fracasso, de tentar outros modos de operação, de fracassar ainda, de voltar à obra, de não abandoná-la, de pensa-la fora do trabalho, a ponto de sonhar com o trabalho e encontrar a solução.

Por isso, é intrínseco lembrar sempre que trabalhar não é somente fracassar, é também experienciar o fracasso tanto tempo quanto seja necessário para encontrar a solução que permita superar o real e o sofrimento do modo mais eficiente e eficaz possível. E posso dizer que quando saí do Suporte estava com o coração tranquilo, porque a equipe estava estruturada, havia indicadores, ferramentas, os clientes estavam mais satisfeitos e cientes dos processos de atendimento.

Mas talvez você esteja pensando, mas Nôga o que muda na minha vida saber dessa teoria de sofrimento e prazer no trabalho?

O que muda daqui para frente depende da nossa decisão prática, de escolhermos sermos mais felizes e sairmos do modo operandis, ou seja, utilizarmos nossa inteligência para termos de fato o trabalho vivo, ou seja, pensarmos em caminhos que facilitem o trabalho e a vida das pessoas, pensando nas implicações que as nossas entregas terão na vida de quem irá utilizá-las, porque muitas vezes a nossa entrega acaba não sendo utilizada e ficamos com aquela sensação ruim e às vezes pensamos: mas por que nosso gestor nos pediu isso se não iria utilizar? Ou por que os clientes nunca ficam satisfeitos?

Mas será que o que fizemos era o que o cliente (gestor) e o lá da ponta queriam? Será que o que fizemos pode ser chamado de trabalho vivo? Será que demos o máximo de nós para transformamos o que foi prescrito em efetivo, em entrega de sucesso? Será que fizemos os questionamentos que eram necessários? Será que entendemos o prescrito para transformarmos em efetivo de fato?

Acredito que é importante pensarmos nisso, porque o trabalho vivo e útil é o que gera prazer e felicidade e faz a diferença na vida das pessoas: clientes, colaboradores, acionistas e comunidade e fazê-lo com zelo é o que gera economia de tempo e nos torna mais produtivos, parafraseando nosso Presidente Ilson Rezende, “fazer o que precisa ser feito, bem feito, na primeira tentativa, com menos esforço, gera o melhor resultado!” Porém, para chegarmos nesse nível de obtermos prazer e resultado eficaz de imediato, precisamos superar o sofrimento quantas vezes forem necessárias. E posso dizer, com certeza, que vale muito a pena, porque ser feliz no trabalho é uma questão de escolha e zelo.

Referência:

DEJOURS, Christophe. Psicodinâmica do trabalho e teoria da sedução. Traduzido porGustavo A. Ramos Mello Neto. Psicol. estud. [online]. 2012, vol.17, n.3, pp.363-371. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-73722012000300002&lng=pt&nrm=iso

Sobre o autor

Nôga Simões Nôga Simões é Coordenadora de Inovação e Relacionamento com Marketplaces na DB1 Global Software, empresa desenvolvedora do ANYMARKET, plataforma de integração e operação com Marketplaces. Simões é Mestranda em Administração de Empresas com ênfase em Marketing, pela Universidade Estadual de Maringá. MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas.