05/04/2018 Jaime Cara Junior

Para a educação de amanhã não ser como a de ontem, inovemos.

Infelizmente, a ideia de inovação foi vulgarizada. Essa palavra foi esgarçada por discursos mercadológicos, por afirmações sem o devido estudo e pesquisa, e por velhas práticas que buscam se reafirmar com “novas” roupagens.

Uma das áreas que mais sofre com isso é a educação, especialmente a educação online. É preciso retomar o sentido mais nobre de inovação. Por exemplo, quando nos deparamos com uma prática de sala de aula que desejamos reproduzir no meio digital, não estamos diante de uma intenção que leva a inovação, mas sim à iteração.

Inovação na educação envolve didática, não só tecnologia

“Melhorar” uma prática didática e reproduzi-la usando uma tecnologia supostamente mais interativa é, na melhor das hipóteses, iteração. Por exemplo, certa vez acompanhei uma atividade elaborada no formato de quiz, usando lousa eletrônica e uma plataforma online que permitia que os alunos respondessem o quis em seus celulares em formato de competição, exibindo as pontuações e o ranking deles em tempo real. Os alunos rápida e profundamente se engajaram na atividade. Estavam eufóricos para participar. Mas apesar da euforia e do engajamento, foi difícil apontar de que forma a atividade tenha de fato contribuído para a aprendizagem de algo. Atualmente, é verdade que disputamos a atenção e interesse dos alunos para poder dar uma boa aula e a aprendizagem se torna muito difícil sem esses elementos: atenção e interesse. Mas em algum momento acho que nos perdemos nessa disputa, porque aparentemente muitos de nós simplesmente pressupõem que basta entreter, chamar a atenção, e manter os alunos ocupados para que eles aprendam. Como ter a atenção e o interesse dos alunos tornou-se um grande desafio, muitos de nós quase que sem querer passamos a atuar como se esse fosse o único ou mais importante desafio. E assim matamos possibilidades de inovar. Usamos recursos tecnológicos que chamem a atenção, por suas maravilhas “interativas”, e então aplicamos uma didática do nosso baú.

O que frequentemente testemunhamos é uma grande onda de reprodução de velhas ideias pedagógicas, iteradas por meio de inovações tecnológicas. Buscar tecnologias que sirvam a essa aula, e desenvolver essas tecnologias é reiterar velhas práticas, ainda que elas nos pareçam mais atraentes, mais interativas, mais individualizadas, etc.

O caminho da inovação é quando partimos do pressuposto de que mesmo a melhor aula presencial possível não é suficiente para nossos objetivos educacionais no meio digital, dadas as restrições (constraints) próprias desse meio. Por exemplo, podemos nos perguntar: o que é já possível fazer no meio digital? O que é impossível? O que ainda não é possível, mas que seria útil didaticamente? Quais são as práticas didáticas que não são possíveis em sala de aula sem tecnologia? Não se trata de pensar em que a tecnologia pode tornar algo mais “legal” ou mais “dinâmico”, mas sim em que ela pode tornar algo possível! Eis o potencial da tecnologia que uma educação inovadora pode explorar.

É preciso partir das características próprias do meio digital, de princípios educacionais e pedagógicos bem desenvolvidos, incentivando o pensamento crítico e a chegada a conclusões a partir do que foi passado e do atual estágio de desenvolvimento dos recursos disponíveis para, como quem se lança a uma empreitada de resolução de problema, conceber uma solução inovadora.

Vamos romper com o ranço de reproduzir velhas práticas com apetrechos tecnológicos que as deixam parecer atuais e adequadas as necessidades educacionais e pedagógicas atuais. Precisamos inovar. A educação carece de inovações.

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Sobre o autor

Jaime Cara Junior Jaime Cara Junior é Coordenador de Tecnologia Educacional no CNA Administração Nacional, PhD em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês pela USP, membro suplente do Conselho Discente de Pesquisa da USP e autor do livro “Educação sem distância: efeitos de presença em cursos online”.